TRANSCRIÇÃO FIEL DA CONCLUSÃO DO
RELATÓRIO ANUAL DO COMANDANTE DO COLÉGIO MILITAR DE PORTO ALEGRE, CEL MANOEL
JOSÉ DE FARIA ALBUQUERQUE, REFERENTE AO ANO DE 1915, PUBLICADA EM
CONCLUSÃO.
Não poderia fechar este relatorio sem que, ao menos por desencargo de
consciencia, porquanto, si não grandes as minhas responsabilidades perante o Governo, que me honra com a sua confiança,
não são certamente menores, embora de ordem puramente moral, as que tenho para com os chefes de famílias
que a este estabelecimento confiaram a instrucção e educação de seus filhos,
sem que repetisse, data venia, o appello que em meu anterior relatorio vos
dirigi, solicitando o amparo moral do Governo, sem o qual não será bastante o amparo
material da lei orçamentaria para garantia de sua prosperidade e para que possa
proseguir dispreocupadamente o seu nobre destino, acobertados todos aquelles
que, por varios motivos, si interessam pela sua conservação, da vexatoria e
deprimente necessidade de recorrerem á intervenção protectora de elementos
politicos predominantes no seio do Congresso.
É incontestavel que os Collegios Militares prestam á Nação relevante
serviço, já ministrando á juventude uma instrucção seccundaria sufficientemente
solida e de larga efficiencia, quer como base para estudos superiores, quer
como preparo para a lucta pela vida, já proporcionando uma educação civica tão
apurada, como e nenhum outro estabelecimento de ensino recebe a mocidade brazileira.
Em um paiz como o nosso, onde o analphabetismo ainda existe em proporção
assombrosa, ao passo que, a despeito dos esforços empregados pelos chefes do
Exercito, muito, quasi tudo esta ainda por fazer-se no que concerne á sua
defeza militar, que so agora se tenta seriamente organisar com a pratica do serviço obrigatorio, cujo
advento, porem, não sahio por emquanto da phase preparatoria, devido ás fortes
resistencias creadas pela ignorancia do povo e absoluta falta de educação
civica, não só daquelle, sinão, o que é peor e mais deploravel ainda, da grande
maioria dos lettrados entre os quaes se acham os guias e directores da opinião publica, seria um
grande erro e uma grave injustiça considerar os Collegios Militares como instituições destituidas de
prestimos, ou de utilidade duvidosa e não compensadora das despezas que
acarretam ao Thesouro.
Ainda bem que neste momento historico, graças á palavra eloquente e
inflammada de um poéta dos mais justamente queridos em nosso meio litterario,
que acaba de revelar-se tambem um grande patriota e um emerito prescrutador dos
destinos da Patria e do futuro da nossa nacionalidade, um movimento de reacção
começa a sua obra benefica de destruição dos velhos preconceitos que faziam do
serviço das armas e do preparo para defeza da Patria um mister só proprio de mercenarios
e das classes infimas da sociedade.
A proposito da urgente necessidade de se ir por todos os meios
procurando destruir o mal entendido e impatriotico espirito de opposição e má
vontade, infelismente existente em nosso meio social, a tudo quanto se refere
ás instituições militares, substituindo-o por uma activa e benefica corrente de
sympathia por essas instituições, que se destinam á defeza da Patria, nenhuma
escola, nenhum collegio, nenhum instituto de ensino – disse eu em meu relatorio
do anno passado – é mais proprio para chegar com segurança a esse resultado do
que os collegios militares, que são
verdadeiros centros de attracção da nossa juventude ainda não imbuida dos preconceitos
anti-militaristas e efficientes traços de união entre o elemento militar e o
elemento civil, cuja intima e fraternal approximação é necessario que se faça,
porque assim o exige não só a defesa das instituições, como a da propria
integridade da Patria.
Entretanto, surge todos os annos, ou antes, resurge, no Congresso
Nacional, ora na Camara dos Deputados, ora no Senado, por occasião da discussão
do orçamento da despeza da guerra, a ideia da extincção daquelles institutos,
verdadeiramente – meritorios – na mais genuina accepção deste qualificativo,
sob o illuzorio e fallaz pretexto de economia, como si, poupada a ninharia que
com elles depende o erario publico, grande folga pudessem dessa medida auferir
as nossas finanças. Diz-se que os Collegios Militares são caros.
Mas, que é que não é caro neste Paiz?!
Depois, si são caros, a verdade é que elles podem ser mantidos mais
economicamente, como agora mesmo o está provando este, e mais economicamente
ainda si lhes fosse dada certa autonomia ao contrario de cercel-a como se fez,
por exemplo, na recente lei orçamentaria, em que se estabeleceu obrigatoriamente
que todos os fornecimentos serão contratados por seis mezes e não mais por um
anno, como já estava estabelecido, o que accarreta não pequenas despezas, com a
publicação de editaes, quadros comparativos, etc, despezas essas que podem
muitas vezes vir a ser superiores ás vantagens de tal processo, mesmo quando
feitas essas publicações com a maior parcimonia permittida em lei, como acaba
de acontecer, com este Collegio que só ao orgão official “A FEDERAÇÃO”, onde
eram essenciaes taes publicações, pagou por ellas perto de seiscentos mil reis.
É certissimo que si a administração do Collegio agisse neste assumpto com mais
liberdade e autonomia, faria o mesmo serviço muito mais economicamente.
Muito conviria, porem, decidir-se de uma vez – si devem ou não ser
mantidos os Collegios Militares – para evitar-se a reprodução do que vem
acontecendo todos os annos, com grave prejuiso para elles, ou pelo menos para
este, pois é incontestavel, que a tentativa de sua extincção, annunciada como
foi o anno findo para esta Capital, e largamente divulgada no interior logo nos
primeiros dias de Setembro, perdurando essa ameaça, sem um desmentido
autorisado e tranquilisador, até os ultimos dias e mesmo até as ultimas horas
do anno, occasiona grandes prejuisos ao Collegio, tanto de ordem moral como de
ordem material.
O primeiro effeito que produz a noticia malaventurada ideia é o de mal
estar-geral, sobresalto e o desgosto que experimentam todos aquelles que se
interessam pela vida do Collegio e se esforçam pela sua prosperidade; os
alumnos mostram-se esmorecidos e desanimados, tendendo a afrouxar os estudos,
que só não abandonam devido aos conselhos com que os confortam e reanimam os
seus professores e a administração; as matriculas diminuem, apesar dos desejos
que sei existirem de muitos chefes de familias de verem seus filhos aqui matriculados,
mas, receiosos de que possam vir a ser prejudicados, em tempo e em dinheiro,
por um repentino fechamento do Collegio, cedem aos conselhos da prudencia e
retrahem-se; pelo mesmo motivo é enormemente difficultada a arrecadação das
pensões dos contribuintes, notando-se manifesta repugnancia, de grande parte
dos responsaveis, em pagar os trimestres adiantadamente, mesmo ameaçados da
execução do disposto no artigo 77 que manda desligar o contribuinte
retardatario no pagamento das suas pensões, disposição esta, que, si fosse
rigorosamente executada, nas condições actuaes, deixaria o Collegio sem alunos
contribuintes. Esta repugnancia naturalmente não existiria se estivessem todos
tranquillos e confiantes na estabilidade do estabelecimento cuja existencia si
lhes afigura precaria e contingente.
Eu peço, pois a attencção de V.Exa para este assumpto, na esperança de
que fareis o que fôr justo e mais acertado no sentido de evitar os
inconvenientes apontados, que só podem retardar e difficultar o advento da independencia
ou autonomia economica do Collegio.
Finalmente, devo pedir a V.Exa. a bondade de relevar-me alguma expressão
porventura menos conveniente de que me tenho servido para diser-vos neste
relatorio, com verdade e franqueza aquillo que penso e sinto.