TRANSCRIÇÃO FIEL DA CONCLUSÃO DO RELATÓRIO ANUAL DO COMANDANTE DO COLÉGIO MILITAR DE PORTO ALEGRE, CEL MANOEL JOSÉ DE FARIA ALBUQUERQUE, REFERENTE AO ANO DE 1915, PUBLICADA EM 26 DE JANEIRO DE 1916, VERSANDO SOBRE A POSSIBILIDADE DE FECHAMENTO DOS COLÉGIOS MILITARES

 

 

 

CONCLUSÃO.

 

 

 

Não poderia fechar este relatorio sem que, ao menos por desencargo de consciencia, porquanto, si não grandes as minhas responsabilidades  perante o Governo, que me honra com a sua confiança, não são certamente menores, embora de ordem puramente moral,  as que tenho para com os chefes de famílias que a este estabelecimento confiaram a instrucção e educação de seus filhos, sem que repetisse, data venia, o appello que em meu anterior relatorio vos dirigi, solicitando o amparo moral do Governo, sem o qual não será bastante o amparo material da lei orçamentaria para garantia de sua prosperidade e para que possa proseguir dispreocupadamente o seu nobre destino, acobertados todos aquelles que, por varios motivos, si interessam pela sua conservação, da vexatoria e deprimente necessidade de recorrerem á intervenção protectora de elementos politicos predominantes no seio do Congresso.

 

É incontestavel que os Collegios Militares prestam á Nação relevante serviço, já ministrando á juventude uma instrucção seccundaria sufficientemente solida e de larga efficiencia, quer como base para estudos superiores, quer como preparo para a lucta pela vida, já proporcionando uma educação civica tão apurada, como e nenhum outro estabelecimento de ensino recebe a mocidade brazileira.

      

Em um paiz como o nosso, onde o analphabetismo ainda existe em proporção assombrosa, ao passo que, a despeito dos esforços empregados pelos chefes do Exercito, muito, quasi tudo esta ainda por fazer-se no que concerne á sua defeza militar, que so agora se tenta seriamente organisar  com a pratica do serviço obrigatorio, cujo advento, porem, não sahio por emquanto da phase preparatoria, devido ás fortes resistencias creadas pela ignorancia do povo e absoluta falta de educação civica, não só daquelle, sinão, o que é peor e mais deploravel ainda, da grande maioria dos lettrados entre os quaes se acham os guias  e directores da opinião publica, seria um grande erro e uma grave injustiça considerar os Collegios  Militares como instituições destituidas de prestimos, ou de utilidade duvidosa e não compensadora das despezas que acarretam ao Thesouro.

 

Ainda bem que neste momento historico, graças á palavra eloquente e inflammada de um poéta dos mais justamente queridos em nosso meio litterario, que acaba de revelar-se tambem um grande patriota e um emerito prescrutador dos destinos da Patria e do futuro da nossa nacionalidade, um movimento de reacção começa a sua obra benefica de destruição dos velhos preconceitos que faziam do serviço das armas e do preparo para defeza da Patria um mister só proprio de mercenarios e das classes infimas da sociedade.

 

A proposito da urgente necessidade de se ir por todos os meios procurando destruir o mal entendido e impatriotico espirito de opposição e má vontade, infelismente existente em nosso meio social, a tudo quanto se refere ás instituições militares, substituindo-o por uma activa e benefica corrente de sympathia por essas instituições, que se destinam á defeza da Patria, nenhuma escola, nenhum collegio, nenhum instituto de ensino – disse eu em meu relatorio do anno passado – é mais proprio para chegar com segurança a esse resultado do que os collegios militares,  que são verdadeiros centros de attracção da nossa juventude ainda não imbuida dos preconceitos anti-militaristas e efficientes traços de união entre o elemento militar e o elemento civil, cuja intima e fraternal approximação é necessario que se faça, porque assim o exige não só a defesa das instituições, como a da propria integridade da Patria.

 

Entretanto, surge todos os annos, ou antes, resurge, no Congresso Nacional, ora na Camara dos Deputados, ora no Senado, por occasião da discussão do orçamento da despeza da guerra, a ideia da extincção daquelles institutos, verdadeiramente – meritorios – na mais genuina accepção deste qualificativo, sob o illuzorio e fallaz pretexto de economia, como si, poupada a ninharia que com elles depende o erario publico, grande folga pudessem dessa medida auferir as nossas finanças. Diz-se que os Collegios Militares são caros.

 

Mas, que é que não é caro neste Paiz?!

 

Depois, si são caros, a verdade é que elles podem ser mantidos mais economicamente, como agora mesmo o está provando este, e mais economicamente ainda si lhes fosse dada certa autonomia ao contrario de cercel-a como se fez, por exemplo, na recente lei orçamentaria, em que se estabeleceu obrigatoriamente que todos os fornecimentos serão contratados por seis mezes e não mais por um anno, como já estava estabelecido, o que accarreta não pequenas despezas, com a publicação de editaes, quadros comparativos, etc, despezas essas que podem muitas vezes vir a ser superiores ás vantagens de tal processo, mesmo quando feitas essas publicações com a maior parcimonia permittida em lei, como acaba de acontecer, com este Collegio que só ao orgão official “A FEDERAÇÃO”, onde eram essenciaes taes publicações, pagou por ellas perto de seiscentos mil reis. É certissimo que si a administração do Collegio agisse neste assumpto com mais liberdade e autonomia, faria o mesmo serviço muito mais economicamente.

 

Muito conviria, porem, decidir-se de uma vez – si devem ou não ser mantidos os Collegios Militares – para evitar-se a reprodução do que vem acontecendo todos os annos, com grave prejuiso para elles, ou pelo menos para este, pois é incontestavel, que a tentativa de sua extincção, annunciada como foi o anno findo para esta Capital, e largamente divulgada no interior logo nos primeiros dias de Setembro, perdurando essa ameaça, sem um desmentido autorisado e tranquilisador, até os ultimos dias e mesmo até as ultimas horas do anno, occasiona grandes prejuisos ao Collegio, tanto de ordem moral como de ordem material.

 

O primeiro effeito que produz a noticia malaventurada ideia é o de mal estar-geral, sobresalto e o desgosto que experimentam todos aquelles que se interessam pela vida do Collegio e se esforçam pela sua prosperidade; os alumnos mostram-se esmorecidos e desanimados, tendendo a afrouxar os estudos, que só não abandonam devido aos conselhos com que os confortam e reanimam os seus professores e a administração; as matriculas diminuem, apesar dos desejos que sei existirem de muitos chefes de familias de verem seus filhos aqui matriculados, mas, receiosos de que possam vir a ser prejudicados, em tempo e em dinheiro, por um repentino fechamento do Collegio, cedem aos conselhos da prudencia e retrahem-se; pelo mesmo motivo é enormemente difficultada a arrecadação das pensões dos contribuintes, notando-se manifesta repugnancia, de grande parte dos responsaveis, em pagar os trimestres adiantadamente, mesmo ameaçados da execução do disposto no artigo 77 que manda desligar o contribuinte retardatario no pagamento das suas pensões, disposição esta, que, si fosse rigorosamente executada, nas condições actuaes, deixaria o Collegio sem alunos contribuintes. Esta repugnancia naturalmente não existiria se estivessem todos tranquillos e confiantes na estabilidade do estabelecimento cuja existencia si lhes afigura precaria e contingente.

 

Eu peço, pois a attencção de V.Exa para este assumpto, na esperança de que fareis o que fôr justo e mais acertado no sentido de evitar os inconvenientes apontados, que só podem retardar e difficultar o advento da independencia ou autonomia economica do Collegio.

 

Finalmente, devo pedir a V.Exa. a bondade de relevar-me alguma expressão porventura menos conveniente de que me tenho servido para diser-vos neste relatorio, com verdade e franqueza aquillo que penso e sinto.