Boa tarde, Diretora da Faculdade de Comunicação Social, Mágda Cunha, demais componentes da mesa, colegas, amigos, familiares, pais.
Um soldado foi incumbido de
solicitar ajuda a Esparta em favor dos Atenienses na luta contra os persas.
Correndo por um terreno irregular, driblando as adversidades do percurso foi
ele também o responsável por comunicar ao povo ateniense a vitória na guerra.
Esse episódio deu origem a prova olímpica conhecida
como Maratona. O que Pheidippides fez foi levar
informações da fonte ao receptor e ele só dependia do seu próprio esforço e
capacidade para realizar a tarefa. Na essência o jovem soldado cumpriu uma
tarefa com a qual nos comprometemos oficialmente a partir de hoje.
Para ser jornalistas fomos
preparados, não quatro anos, nem cinco, nem seis, mas a vida inteira. Digo
isso, porque aprendemos o nosso oficio vivendo em sociedade. Quem são as
pessoas que nos cercam? Que histórias trazem consigo? O que lhes aflige?
Quando, onde, como, porquê? Sim, perguntamos demais.
Ás
vezes, a vida parece transcorrer numa cômoda rotina. Difícil e inquietante ao
mesmo tempo. E subitamente emerge a necessidade de algo novo. Proust já
alertava quando dizia que a verdadeira viagem do descobrimento não consiste em
procurar novas paisagens, e sim em ter novos olhos.
Olhando
um pouco para trás, quanta coisa mudou em quatro anos de estudo. Não mudaram
somente nossos desejos. Entramos na faculdade de jornalismo com o sonho de
revelar a verdade, saímos, agora, com o poder e o dever de realizá-la. E para
quem realmente acredita na nossa profissão, posso assegurar que o mundo não
piorou. As coberturas jornalísticas é que melhoraram muito.
Não
há nada do que possa falar aqui capaz de acrescentar valores a cada um de
vocês. Nada extraordinário que possa mudar opiniões ou virar comportamentos em
nome da moral política e social do que é ser um jornalista comprometido com a
verdade. O jornalismo é imponderado,
contraditório e por isso mesmo fascinante. O imprevisível tem um singular sabor
que só pode ser provado por aquele que se aventura e descobre.
Na academia fomos uma turma rebelde,
não é mesmo meus colegas? Mas não foi uma rebeldia sem causa. Queríamos mais do
que nos ofereciam. Quando mudaram o currículo, fomos resistentes ao novo.
Quantos abaixo assinados mesmo? Nem lembro. A tecnologia invadia nossas salas
de aula com a promessa de que o mundo estava na frente da tela do computador.
Mas, o nosso mundo não estava ali. Nosso mundo sempre esteve nas ruas, nas
praças, no trânsito, na periferia, onde o povo estivesse.
Acontece
que os discursos são volúveis, mesmo na pretensão de serem voláteis. E isso não
é nenhum descrédito. São as nossas atitudes que vão determinar se o nosso
jornal faz realmente jornalismo ou é só um papel pintado com palavras e fotografias
bonitinhas. Se a nossa estação de rádio faz realmente jornalismo ou apenas
ocupa o espaço com sons dispensáveis e vazios. Se a nossa emissora de TV faz
realmente jornalismo ou virou um depósito eletrônico onde pipocam formosuras e
clipagens graciosas. Se nossa assessoria de imprensa mantém a ética
jornalística ou se transformou numa mera repassadora de informações.
Por uma coincidência ou obra do
destino essa cerimônia esta acontecendo na mesma data em que há 52 anos o
jornalista Carlos Lacerda foi vitima de um atentado. Ele é lembrado
historicamente pela forte oposição ao Governo Getulio Vargas. Naquele dia, tentaram
calar um jornalista impiedoso, crítico na essência. Um homem que nunca teve
medo de mexer e nem de medir as palavras. A nossa profissão nos permite estar
no local, na hora dos acontecimentos, de relembrar fatos, mas também de
refletirmos sobre eles. Que jornalistas queremos ser?
Na
Famecos conhecemos mestres com os quais aprendemos
muito, e a eles somos gratos. Mas, também encontramos aqueles que nos mostraram
por atitudes, posicionamentos, posturas como não devemos ser. Assim foi com os
colegas, nos descobrimos aos poucos e aprendemos a respeitar as diferenças. As
escolhas de time de futebol, partido político, religião. Nos trabalhos
reconhecemos o profissionalismo de cada um, e também os estressados, os
tranqüilos, os sensatos, os inquietos, os geniosos, os onipresentes...
Saímos da Famecos
com a distinção de termos nos formado no primeiro curso de jornalismo do Brasil
a receber o certificado de acreditação do Conselho
Latino-Americano de Credenciamento de Educação em Jornalismo, entidade
administrada pela Sociedade Interamericana de Imprensa. Isso reconhece o curso
como adequado ao padrão internacional de qualidade e, portanto, a nós também.
Meus amigos saímos daqui com uma bagagem cultural,
maior, mais rica. Aprendemos a teoria do jornalismo e
também a prática, mas não abandonamos o nosso espírito crítico, a curiosidade.
A academia nos abriu portas para o mercado e assim percebemos que a capacidade
de atualização constante aliada a postura social são
ferramentas de trabalho imprescindíveis.
A ética é o nosso maior tesouro. É
colocar-se no lugar de quem é notícia. E ciente dessa importância sabemos até
onde ir e como ir. Porque não começar de mansinho, suar, cair, levantar,
respirar e se necessário porque não correr uma maratona? Afinal, somos
interlocutores da história, regidos por fatos, paixões, movidos pela
curiosidade e pelas transformações.
“Meu filho tu quer mesmo ser jornalista?
Porque não médico, advogado? Ouvi dizer que o mercado
está saturado. Jornalistas morrem nas guerras, são torturados, já pensou nisso?
Sim. Nós pensamos. E aos nossos pais, familiares, amigos que nos questionaram
obrigada, porque nada foi mais desafiador e estimulate, durante todo esse
tempo, do que sempre ter perguntas e procurar respostas.
E para não fugir dos clichês que rodeiam
nossas vidas, fica a reflexão: Carlos
Drummond de Andrade diria “lutar com palavras é a luta mais vã. Palavra, palavra,
se me desafias, aceito o combate”.
(Grasiela do Nascimento Duarte)