Venezuela, um arsenal de meter medo

País compra poderosas armas russas e pode virar a maior potência militar do continente

João Ricardo Gonçalves

O Dia - 31/07

Caracas - Com US$ 3 bi no bolso e uma lista de compras que incluía os modernos caças Sukhoi-30 (SU-30) e fuzis Kalashnikov 103 (AK-103), além de helicópteros de combate, Hugo Chávez encheu o carrinho esta semana, na Rússia. Segundo especialistas, as intenções do líder venezuelano, que também poderá adquirir um submarino e mísseis terra-ar inéditos no continente, são de transformar seu país na principal potência militar regional a longo prazo.

“O que me parece é que ele está querendo mostrar músculos para a vizinhança”, explica o jornalista especializado em tecnologia militar Roberto Godoy, citando evidências como a capacidade do Sukhoi de se deslocar por uma área bem maior do que o território da Venezuela. Ele ressaltou, no entanto, que não considera que o ex-militar vá adotar uma política expansionista, apesar de essa preocupação existir.

A professora de Relações Internacionais das Faculdades Rio Branco de São Paulo, Denilde Holzhacker, lembra o temor de que as aquisições recentes de Chávez podem causar desequilíbrio entre as forças do continente, mas ressalta que as compras estão também relacionadas com a necessidade de afirmação interna do presidente e com o pedido da Venezuela para fazer parte, como membro não-permanente, do Conselho de Segurança da ONU.

 

DESEJO DE AFIRMAÇÃO

“Há duas questões. Uma é tentativa de conseguir uma posição internacional de peso, o que inclui inclusive visitas a países como o Irã. Outra tem a ver com a administração interna e o oposicionismo que enfrentou.”

O processo de modernização das Forças Armadas venezuelanas começaram por volta do ano 2000 e se fortaleceu depois de uma tentativa de golpe em 2002. Ano passado, por exemplo, o país adquiriu da Espanha 10 aviões de transporte médio C-295, dois aviões de vigilância marítima tipo CN-235 Persuader e 11 navios, sendo oito exclusivos para uso militar. A transação custou a Chávez quase US$ 2 bilhões. Recentemente, o presidente venezuelano também apresentou blindados brasileiros com canhões novos.

Constantemente, Chávez justifica seus gastos com discursos contra os EUA de George W. Bush, que elegeu como seu inimigo número 1.

As intenções de se tornar a maior potência militar da América do Sul seriam concretizadas a longo prazo, já que Chávez planejaria se manter no poder por mais 20 anos. Até lá, os gastos militares aumentariam, podendo chegar, segundo alguns oposicionistas, a 50% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, dependendo de variações na cotação do petróleo. “A arma mais importante que Chávez tem é o tempo”, opina Godoy.

 

Mísseis TOR-M1: inéditos na América do Sul

Na viagem à Rússia, Hugo Chávez fechou a compra dos aviões Sukhoi-30, de lotes dos modernos fuzis AK-103 e da construção de uma fábrica desse tipo de armamento na Venezuela. Todas essas armas já haviam sido anunciadas, assim como 30 helicópteros de combate. Um representante do Ministério da Defesa russo, no entanto, anunciou que o venezuelano estuda também a compra de mísseis terra-ar TOR-M1, que nenhum outro exército na América do Sul possui, e do submarino convencional Amur, “máquina de guerra impressionante”, segundo o jornalista especialista em tecnologia militar Roberto Godoy.

O vice-presidente do governo venezuelano, José Vicente Rangel, disse que o país recorreu à Rússia porque os EUA se negaram a lhes vender armas, e negou um “armamentismo

 

OPÇÃO OFENSIVA

Correio Braziliense - 29/07

A aquisição de armas russas pelo governo venezuelano, ao custo de US$ 3 bilhões, abre nova corrida armamentista na América do Sul. Não se pode negar o direito de autodefesa a nenhum país, mas o presidente Hugo Chávez priorizou a compra de armas ofensivas. Os caças Sukhoi Su-30 são superiores qualitativamente a todos os modelos de avião de combate norte-americanos em operação. Possuem raio de ação superior a 1.400 quilômetros, o que coloca o Caribe — incluindo Cuba e o estado norte-americano da Flórida — e a Amazônia brasileira sob o alcance dos aviões da Força Aérea da Venezuela.

O pacote assinado por Chávez é gigantesco. Além de 24 caças Su-30, foram adquiridos 53 helicópteros, inclusive sofisticados Mil Mi-35 especializados para o combate a guerrilhas. A compra inclui um sistema de defesa aérea com mísseis, barcos de patrulha e um submarino. É preciso ressaltar que as intenções do presidente venezuelano, inicialmente, eram bem mais modestas. Ele pretendia modernizar em Israel 16 caças F-16A — comprados dos EUA em 1986. Além disso, estavam em seus planos 24 turboélices Embraer A-29 Super Tucanos, de fabricação brasileira.

O Departamento de Estado norte-americano decretou um embargo à exportação de material de defesa para a Venezuela, frustrando o programa original de reequipamento. Como os aviões da Embraer usam motores projetados nos EUA, inviabilizou-se sua exportação ao país vizinho, representando uma perda de receita para o Brasil de US$ 200 milhões. Sem alternativa, Chávez apelou para a indústria bélica russa.

O que causa estranheza nos meios especializados não é a compra em si — afinal de contas, a Venezuela é um dos maiores produtores de petróleo e precisa de meios para proteger suas riquezas naturais —, mas as escolhas feitas por Chávez, famoso por interferir na política interna dos países vizinhos. Segundo o Defence Industry Daily, publicação reconhecida, com o que pagou por 24 caças Sukhoi-30, ele poderia comprar 36 aviões de combate MiG-29 SMT — uma opção superior a todos os modelos empregados na América Latina, com raio de ação de 800 quilômetros, condizente com o território venezuelano.

Thomas Casey, porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, ressaltou a desconfiança do governo dos EUA sobre as intenções de Chávez: “O número de caças ultrapassa muito as necessidades de defesa da Venezuela e a compra pode levar a uma desestabilização regional”. Essa suspeita, apesar de proferida por uma nação que já patrocinou dois golpes de estado contra o presidente venezuelano, tem fundamento.

Uma solução para o problema estaria na institucionalização do Mercosul para evitar planos isolados de defesa e substituí-los por estratégia comum da América do Sul. Atualmente, apenas o Chile realiza programa pesado de rearmamento no subcontinente, com a compra de caças F-16 (dos modelos A e C), submarinos franceses e fragatas usadas de fabricação britânica e holandesa. As aquisições de equipamentos militares do Brasil e da Argentina caracterizam-se por sua modéstia e deveriam servir de exemplo para a região.  

 

Chávez diz que pode vender armas à Bolívia

 

Estadão - 30/07

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, disse que pode vender armas à Bolívia e outros aliados, após o acordo com a Rússia para a instalação de uma fábrica de fuzis Kalashnikov em seu país. Chávez visita o Oriente Médio e ontem reuniu-se em Teerã com o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad (foto). Os dois prometeram apoio mútuo.       

 

Hugo Chávez critica ofensiva de Israel e declara apoio ao Irã

 

Folha de São Paulo - 30/07

O presidente da Vezezuela Hugo Chávez comparou a ofensiva israelense no Líbano aos "atos de Adolf Hitler, que semeou a morte e a destruição no mundo", no término de sua viagem ao Catar.

Durante tour pelo Oriente Médio, Chávez também afirmou que poderia exportar armas e munição para a Bolívia e para outros aliados, quando for aberta a fábrica que produzirá rifles Kalashnikov. "Talvez no futuro nos tornemos um país exportador [de armas]", disse.

Ainda ontem Chávez chegou a Teerã, onde se reuniu com o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Essa é sua quarta visita ao país islâmico desde 2000. A visita de dois dias ocorre num momento em que o Irã está sob a mira da crítica internacional pelo apoio que tem dado ao Hizbollah e por seu programa nuclear. "Estaremos ao lado do Irã em todo momento, em qualquer circunstância", declarou no início de sua visita ao país. Irã e Venezuela são membros da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e mantêm posições antiamericanas.

 

 

Rússia vendeu US$ 3 bilhões em armas para Venezuela em 18 meses

Moscou, 27 jul (EFE).- A Rússia e a Venezuela fecharam contratos de venda de armamento russo no valor de mais de US$ 3 bilhões nos últimos 18 meses, anunciou hoje Sergei Chemezov, diretor do consórcio estatal Rosoboronexport.

Estes contratos incluem a venda de 24 caças russos e 53 helicópteros, segundo Chemezov, que fez estas declarações ao término da reunião entre o presidente russo, Vladimir Putin, e o venezuelano Hugo Chávez no Kremlin.

Chemezov evitou se referir ao contrato de venda de 24 caças-bombardeiros russos Su-30 e 24 helicópteros que, segundo a imprensa russa, foi estipulada durante a atual visita do presidente venezuelano e que chega a quase US$ 2 bilhões.

Os contratos militares incluem o serviço de manutenção e a instrução de especialistas venezuelanos.

Chávez, que agradeceu "infinitamente" à Rússia a ajuda dada para romper o "bloqueio" imposto pelos Estados Unidos, afirmou na quarta-feira que os primeiros caças-bombardeiros Su-30 devem chegar à Venezuela "antes do fim do ano".

"A Rússia nos estendeu a mão", disse Chávez, acrescentando que "o povo venezuelano no dia 5 de Julho - Dia da Independência - se sentiu jubiloso quando dois Su-30 cruzaram os céus livres da Venezuela".

Putin assegurou que a cooperação militar russo-venezuelana "não atenta contra terceiros países e tem como único objetivo beneficiar a economia dos dois países e elevar o nível de vida de seus povos".

Entre os acordos mais importantes está a construção na Venezuela de uma central para a fabricação de fuzis Kalashnikov e sua munição por US$ 200 milhões. A Venezuela comprou no ano passado cem mil fuzis Kalashnikov Ak-103, dos quais 30 mil foram expedidos em junho.

Segundo fontes do Ministério da Defesa, Chávez analisa a compra no futuro de sistemas antiaéreos TOR M1, patrulheiras e submarinos Amur.