Da Inquieta Esperança – por Mario Quintana
Bem sabes Tu, Senhor, que o bem melhor é aquele
Que não passa, talvez, de um desejo ilusório.
Nunca me dê o Céu... quero é sonhar com ele
Na inquietação feliz do Purgatório.
Sob o título “Um poeta no batalhão”, o Governador gaúcho assim se
referiu a Mario Quintana em 2005:
“Poetas talvez
devessem nascer nos jardins, entre sorrisos e aplausos, ao som de pássaros ou
sob os acordes de um quarteto de cordas. Mas não é assim. Poetas são criaturas
da vida, paridos com dor, seres comuns em tudo, exceto pela unção especial que
recebem de Deus para transformar a palavra
Sua contribuição à cultura rio-grandense foi longa e fecunda, seja pela produção própria, seja pela tradução de grandes mestres da literatura universal, com os quais nos proporcionou contato e a cujos textos conferiu, com a fidelidade do tradutor, a marca de seu gênio na lida do nosso próprio idioma.
Poucas pessoas
sabem que o jovem Mario Quintana, aos 24 anos de idade, foi voluntário na
Revolução de 30, tendo pego em armas no 7º Batalhão de Caçadores. Penso que o
fato reforça a idéia de que os poetas são mesmo pessoas do povo, seres comuns
Assim, nosso extraordinário poeta da Alegrete foi revolucionário no Batalhão de Caçadores, com a mesma devoção com que compôs o Batalhão das Letras, olhos postos sobre o público infantil e revelando o alegre menino que teimava em viver dentro de si, porque os poetas são assim. Enquanto os demais seres humanos vivem as etapas da vida deixando-as para trás, os poetas nunca cessam de ser tudo aquilo que foram”.
Em 2006, o Cel Cláudio Moreira Bento – ilustre Presidente da AHIMTB e do IHTRGS, teve a feliz inspiração de pesquisar a vida de Mario Quintana, em homenagem ao centenário de seu nascimento e ao fato de ser ex-aluno do CMPA. E como é do feitio de suas pesquisas, trouxe, para luz da História, fatos que comprovam o espírito militar de que Mario Quintana era imbuído.
Assim, nesta edição histórica de O Gaúcho, comemorativa aos 20 anos do Instituto, o Cel Bento publica o seu trabalho, do qual o seguinte texto é adaptado.
0 ESPÍRITO MILITAR NO POETA MARIO QUINTANA
Pouco conhecidas e divulgadas são as ligações do poeta Mario Quintana com a vida militar, e a influência desta em seu espírito e em sua vida, aqui recordadas no ano de seu centenário.
Mario era neto do Capitão Médico Cândido Manoel de Oliveira Quintana, herói da Retirada de Laguna, na Guerra do Paraguai, e chefe do Serviço de Saúde da tropa que participou daquela épica operação militar. Dos 12 médicos que iniciaram a operação, ele e o Capitão Médico Manoel de Aragão Gesteira foram os dois heróis que resistiram até o fim da Retirada, prestando desvelada e comovente assistência aos coléricos e feridos da coluna.
Terminada a Guerra, o Capitão Manoel Quintana chegou no Alegrete, incorporado ao 3º Regimento de Cavalaria, unidade militar que deu origem ao atual Regimento Osório, de Porto Alegre. O Dr. Quintana passou a residir e a trabalhar na Enfermaria Militar do Alegrete, ali vivendo até falecer, onde deixou sua descendência e, nela, o hoje seu famoso neto, Mario Quintana.
O General-de-Brigada Médico Alberto Martins da Silva biografou o Capitão Quintana em seu livro “Cândido Manoel de Oliveira Quintana”, resumindo, assim, na 4ª capa, a projeção do heróico avô do poeta:
"O Capitão médico Cândido Manoel de Oliveira Quintana, herói da Retirada da Laguna, nascido no Rio de Janeiro, no ano de 1829, foi integrante da Coluna Expedicionária formada para combater a invasão paraguaia de Mato Grosso, participando da famosa Retirada da Laguna. Enfrentou, na longa caminhada, a fome, as doenças e a falta de medicamentos, com coragem, estoicismo e patriotismo. Na vida civil, radicou-se em Alegrete, tendo sido o tronco de grande família que ali construiu. Hoje, seu restos mortais repousam no monumento aos Heróis de Laguna e Dourados, na cidade do Rio de Janeiro".
Mario de Miranda Quintana nasceu em 1906, cerca de 18 anos depois do falecimento de seu avô. E muito aprendeu sobre esse avô com o seu pai farmacêutico, que também o alfabetizou, usando, como cartilha, o jornal Correio do Povo. Assim, o futuro poeta cresceu influenciado pelas histórias heróicas sobre seu avô na Guerra do Paraguai.
Dos 13 aos 19 anos, Mario Quintana cursou, como interno contribuinte, o Colégio Militar de Porto Alegre, aqui no Casarão da Várzea, onde acompanhou o desenvolvimento de um intenso período revolucionário. As revoluções de 1922, 1923 e 1924, como não poderia deixar de ser, tiveram repercussões no Colégio e no imaginário dos jovens alunos.
E foi aqui, no Colégio Militar de Porto Alegre, que o então jovem poeta iniciou sua carreira literária como colaborador da revista Hyloea, a qual, fundada em 1922, até hoje existe.
Em seu primeiro ano no exigente CMPA, Mario Quintana houve-se bem nos estudos, tanto que, em abril de 1920, foi promovido a Cabo-de-Esquadra no Batalhão Escolar. No entanto, por essa época, sua mente e sua alma já estavam tomadas pela poesia. Assim, enquanto permanecia com bons graus em Português e Francês, seu desempenho nas demais matérias passou a ser sofrível, obrigando seu pai a retirá-lo do Colégio em 1924 e empregá-lo em sua farmácia.
Neste momento, vamos assistir a um pequeno trecho do DVD “O Anjo Poeta”, onde Mario fala sobre sua passagem pelo CMPA.
Em 1930, por ocasião da Revolução recém iniciada, surgiu nova
oportunidade de o poeta retornar à vida militar. De pronto, em 3 de outubro daquele
ano, atendendo ao apelo "O Rio Grande de pé pelo Brasil", apresentou-se
como voluntário no 7º Batalhão de Caçadores (atual 7º Batalhão de Infantaria Blindado),
que se encontrava
Seguiu, então, para o Rio de Janeiro, via ferroviária, para apoiar a derrubada do presidente Washington Luiz e a consolidação da Revolução de 30 na capital federal, onde permaneceu por cerca de 6 meses como soldado, retornando a Porto Alegre em 1931, quando retomou sua consagrada carreira de poeta.
Em 1978, retornou ao Rio de Janeiro, representando sua família nos atos de translado dos restos mortais do seu heróico avô, a fim de que esses fossem colocados, com toda a pompa e circunstância, no Monumento dos Heróis de Laguna e Dourados, na Praça General Tibúrcio, na Praia Vermelha.
Na ocasião, entregou às autoridades que organizaram a cerimônia, a documentação militar do avô, conservada com orgulho por sua descendência, acompanhando todo o cerimonial de translado desde Alegrete, passando por Porto Alegre, até o Rio de Janeiro, a bordo de um avião da FAB.
Lá se hospedou, com a Comissão encarregada do trabalho, no Hotel do Clube Militar, mencionando que possuía grande orgulho pela participação do avô na Retirada da Laguna, mas que até então desconhecia a sua consagração pelo Exército Brasileiro com um de seus heróis.
O translado contou com o decisivo apoio da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, sendo idealizado, planejado e conduzido pelo então Major e futuro General Médico, Alberto Martins da Silva, aluno daquela Escola, o qual veio a se transformar no historiador do Serviço de Saúde do Exército e acadêmico da Academia de História Militar Terrestre do Brasil.
Certa feita, no Rio de Janeiro, o General Lyra Tavares foi visitado pelo poeta, em campanha para ingressar na Academia Brasileira de Letras, da qual o militar era um dos imortais. Na ocasião, a esposa do General, gaúcha de Cachoeira, se preparou para receber o poeta com café e um prato de sonhos, na mais correta tradição gaúcha. Ao serem-lhe oferecidos os sonhos, Quintana cunhou mais uma de suas célebres frases: - "Muito obrigado minha senhora. Mas como eu, um poeta, poderia comer sonhos? Seria um sacrilégio!".
O poeta maior dos gaúchos não foi aceito pela Academia Brasileira de Letras. Mesmo assim, sua Pátria hoje o reconhece como uma de suas maiores expressões poéticas. Mario tinha razão: -"Eles passarão! Eu, passarinho!".
Da admiração que nutria pelos feitos de seu avô-herói e pelos do Duque de Caxias na Guerra do Paraguai, da adolescência como aluno do Colégio Militar de Porto Alegre, onde escreveu seus primeiros versos, e das aventuras vividas como soldado de Infantaria, voluntário na Revolução de 30, o nosso poeta-maior forjou um inconteste espírito militar que imortalizaria em uma afirmação. Ao ser perguntado sobre qual o epitáfio que gostaria de ver gravado em seu túmulo, respondeu:
"Mario Quintana: tombou heroicamente em
combate, sob comando do Marquês de Caxias, na conquista da Ponte de Itororó, em
Leonardo Araujo – Cel R/1
Diretor do Museu Casarão da Várzea
Discurso pronunciado na Sessão Solene da
AHIMTB, em